"
Não há lugar melhor que o nosso lar", eu ouvi Dorothy dizer repetidamente, enquanto assistia a O Mágico de Oz pela décima vez. Porém, antes que a garota pudesse voltar para sua casa, no Kansas, o interfone toca. Nem os fones de ouvido conseguiram abafar o som. Não sei se odeio mais o barulho irritante que ele emite ou o fato de que agora terei que pausar o filme para atender a porta.
Saio da cama, não fazendo a mínima ideia de quem poderia ser. "
Meu pai está no trabalho e minha mãe no centro, mas ambos tem chave de casa". Pensei. "Não tenho nenhuma amiga que poderia me visitar à tarde, então elas também estão descartadas como possibilidades. E certamente o Caio Castro não sabe o meu endereço. Infelizmente. É mais provável que seja o carteiro com alguma encomenda." Mas o que vi quando peguei a chave para destrancar o portão que tinha saída para a rua e abri a porta da garagem, certamente não se parecia em nada com um carteiro. 
De onde eu estava, podia ver um homenzinho baixo, careca e muito magro, tão esguio que deixaria várias modelos com inveja. Ele usava um sobretudo comprido que cobria os tornozelos, e seus pés estavam descalços. "Será que ele era um mendigo e estava aqui para pedir comida?" A pele dele também tinha um aspecto estranho. "Talvez ele seja um revendedor da Jequiti".
Fui me aproximando do portão fechado, devagar. Talvez essa pessoa tenha apenas tocado a campainha no endereço errado. Mas, enquanto chegava mais perto podia notar que a pele dele não era apenas ressecada, e sim verde. "Ah, claro. Ele deve fazer performances como estátua viva" Mesmo que elas não sejam comuns na minha cidade. 
Eu não tinha mais teorias que pudessem explicar quem era aquele homem esquisito. Porém, de tão focada que estava em descobrir o que ele queria, antes mesmo de perguntar, acabei deixando de perceber as coisas ao meu redor. Como o meu cachorro, que estava em sua casinha, ao invés de latir para o estranho como faria com qualquer inseto que se mexesse. Ou na nave espacial que estava caída na horta, soltando fumaça, no terreno ao lado da minha casa.
Quando percebi tudo isso, soube quem era aquele homem, que de homem não tinha nada. Quem havia tocado o interfone, na verdade, era um alien.
"Tudo bem. Você já sabia que existia vida fora da Terra, só não que ela iria aparecer na porta da sua casa e que era tão feia. E clichê" Por mais que eu tivesse certeza de que não estava alucinando, meu cérebro era incapaz de processar aquela cena. 
Já estava bem próxima do portão. Tão perto que eu pude ouvir o extraterrestre falar comigo.

- Leve-me ao seu líder.

Instantaneamente dei meia-volta, decidida a bater a porta na cara do ET.

- Moça, ei, é brincadeira! Não fique chateada. - Ele dava umas risadinhas alienígenas que pareciam soluços. - Mas, meu santo Alien, você deveria ver a sua cara. - O extraterrestre então teve a coragem de me imitar, muito mal diga-se de passagem. - Me desculpe por isso, eu não pude evitar. Os humanos sempre caem nessa.

Toda aquela história de extraterrestre era tão surreal que eu pensei novamente na possibilidade de estar alucinando, ou então de estar em um quadro de pegadinhas do Silvio Santos. Mas tanto o alienígena, que agora me encarava, com seus olhos completamente pretos, quanto a nave ao lado da minha casa, pareciam bem reais.
Precisava ter certeza de que estava diante de um ET de verdade, então fiz a coisa mais lógica, e também imbecil, na qual consegui pensar. Destranquei o portão, segurei a cabeça do alien e a puxei para cima.

- Ai! - Ele disse. - Isso não é muito cordial. Por acaso, vocês, humanos, involuíram? - O ET pergunta, parecendo sincero.
- Não! Por acaso, vocês, extraterrestres, costumam tocar a campainha de pessoas e fazer brincadeirinhas sem graça? - Pergunto. 
- Não. Olha moça, eu já pedi desculpas por aquilo, ok? Se eu soubesse que ficaria tão ofendida assim, nem teria falado nada. Bom, são águas passadas. Apenas gostaria de saber se você poderia me indicar o caminho para o o posto de combustível mais próximo.

Como era de se esperar, eu ainda estava um pouco chocada com a visita inesperada.

- Posto de combustível? - Foi a minha resposta inteligente ao pedido do ET.
- Isso. Você não sabe o que é um? Me disseram que tem vários aqui na Terra também.
- Claro que eu sei o que é um posto de combustível! - Eu disse rapidamente, tentando encobrir a bobagem que falei. - O que eu quis dizer é qual tipo dele que você precisa.
- Ah sim, claro. Nós usamos suco.
- Como assim, suco? E gasolina, álcool, esse tipo de coisa?
- Isso nós bebemos, obviamente. - A lógica alienígena é uma coisa incrível.

Talvez eu estivesse completamente pirada. Na verdade, isso era muito provável. Mas, até que se provasse o contrário, eu ajudaria o alien, contrariando toda a improbabilidade da situação. 

- Pode ser Tang?

***

Depois de convidar Ubil, pois aparentemente ET's também possuem nomes, para entrar, precisei ir ao mercado comprar o suco em pó necessário para fazer a nave dele funcionar novamente. Não era a melhor ideia do mundo, deixar um alien sozinho na minha casa, mas eu não tinha outra opção. Se eu saísse com ele na rua, me achariam ainda mais esquisita do que normalmente.
Ubil me disse que, para chegar aonde queria, precisava apenas de 30 litros de combustível, pois além de sua nave ser pequena, também era ultraeconômica. Não faço ideia do que a atendente pensou de mim quando passei pelo caixa com trinta pacotinhos de suco instantâneo, mas tinha um extraterrestre na minha casa, então era desnecessário me preocupar com algo banal como isso.
Quando cheguei, encontrei meu mais novo e único conhecido extraterrestre, usando o meu notebook. E se tem uma coisa que ninguém faz, nem mesmo um alienígena, é mexer nas minhas coisas.

- Lá na Terra dos Aliens onde você mora não existe uma coisa chamada privacidade? - Perguntei.
- Ah, oi. Existe sim. Me desculpe, eu só estava interessado nessas imagens passando na tela. - Ele olhava admirado para Dorothy, batendo os calcanhares de seus sapatinhos vermelhos.
- Isso se chama filme. - Respondi.
- Claro! Eu ouvi falar dos filmes. Eles são uma raridade onde eu moro. Ninguém vê um há 946 anos terrestres. São uma tecnologia muito ultrapassada. Ouvi falar que aqui também existiam aqueles filmes curtinhos em sequência. Como se chamam mesmo?
- Você está falando das séries?
- Exato! -  Ele parecia realmente extasiado com aquilo.
- O que você e seus amigos fazem no seu tempo livre, então? Existem livros por lá?
- Sim, existem livros, vários. Mas só temos tempo de lê-los quando saímos do trabalho, que é igual e obrigatório para todos e dura 24 horas, ou seja, um dia terrestre. Não se espante, os dias no nosso planeta têm 40 horas.
- E qual é o trabalho de vocês? - Já que eu tive a ideia super normal e sã de ajudar um alienígena a fazer suco-combustível para a sua nave espacial e estou conversando com ele, por que não perguntar? 
- Telemarketing.

Subitamente, muita coisa fez sentido.

***

Após preparar todo o suco em pó, usar inúmeros baldes, copos, bacias e tudo o mais que pudesse conter o líquido, e aumentar muito a conta de água, fui ajudar Ubil a encher o tanque da nave dele. Isso implicaria em entrar naquela embarcação, mas afinal, o que é um passeio por uma nave espacial de pequeno porte quando já se teve um dia bem fora do comum?
Segui o alien pela porta de entrada da nave e então por um pequeno corredor, até chegarmos a cabine principal. Não parecia muito diferente de uma espaçonave da Terra, mas quem sabe o que eu encontraria se continuasse andando por ali? Larguei 2 baldes de suco de limão no chão e voltei à minha casa para pegar mais. Tentava não pensar em quanta louça eu teria que lavar quando acabássemos com aquilo.
Depois de tanto entrar e sair da nave, acabei notando que os botões e telas do painel de controle possuíam letras iguais as do nosso alfabeto, só que em menor quantidade. As únicas que apareciam eram A, E, I, O, U e Y, assim como os números que conhecemos. Assim que trouxe o último copo de Tang até a cabine, parei para tentar entender que palavras aquelas 6 letras estavam formando, mas era o mesmo que tentar ler em mandarim. Eu não conseguia entender absolutamente nada.

- Qual é a função desse botão aqui? - Perguntei a Ubil, que havia acabado de derramar o último frasco de shampoo cheio de suco instantâneo no tanque de combustível.
- Ligar o ar-condicionado.

Fala sério. Achei que era algo bem mais legal, tipo um propulsor de antimatéria. Mas, temos que aprender a conviver com decepções.

- Muito obrigado por sua ajuda, humana. - O extraterrestre ainda se recusava a me chamar pelo nome. Disse que sua cultura não diferenciava os terráqueos uns dos outros, o que era bem deprimente para nós, porém Ubil não me tratou nada mal, então simplesmente aceitei. - Posso retribuir o favor de algum modo?

Eu não sou acostumada a aceitar presentes de pessoas, muito menos de extraterrestres que mal conheço, mas a situação era bem incomum, o que pedia por atitudes incomuns. 

- Bem, sabe, a conta de água vai sair bem cara no final do mês...
- Não se preocupe, eu entendo perfeitamente. - Ele entrou em uma das salas da nave, e dava para notar que estava procurando por algo, já que havia barulho de coisas caindo ou simplesmente sendo atiradas a esmo. - Aqui está. - O alien disse, voltando com uma maleta prateada que abriu na minha frente, revelando dinheiro. Com certeza, muito mais grana do que eu precisaria para pagar uma conta de luz.
- Olha só ET, eu te agradeço por isso, mas não vou precisar de tudo, pode ficar com o resto - Eu disse, pegando algumas notas da mala e a empurrando de volta para Ubil. Não seria legal ficar com uma grande quantia em dinheiro de um alienígena que trabalhava com telemarketing. Tudo bem, não seria legal ficar com o salário de ninguém.
- Se você insiste. - O extraterrestre diz, se despedindo. - Obrigado, de verdade.
- Por nada. - Sorri para ele. Tantas coisas estranhas já tinham acontecido, não vou deixar de sorrir para um alien.

Saio da nave, ainda não conseguindo acreditar em quão maluco o dia foi. Ubil já estava preparado para partir, mas então me lembrei de uma coisa que eu não podia deixar de fazer.

- Ubil, espera! - Eu grito, e entro correndo na nave, antes que a porta se feche. Ele para, surpreso, e desliga o motor, se virando para saber o que me fez voltar até ali. - Tira uma selfie comigo?

***

Passei grande parte da tarde olhando aquela foto, tentando descobrir se poderia ter sido a minha imaginação extremamente fértil que criou aquela aventura. Até cheguei a compartilhá-la nas redes sociais, para ter certeza de que não era apenas eu que via o Ubil ali. Foi impossível não revirar os olhos quando li os comentários, mas fiquei contente mesmo assim, sabendo que aliens existiam e um deles tinha me visitado. Amigavelmente.

***





Eu não sabia direito como terminar esse texto, mas acabei gostando do final que dei. Espero que tenham se divertido lendo e deixem suas opiniões sobre o conto nos comentários. Críticas, dicas, reações, quero saber o que acharam! E o que vocês fariam se um alienígena batesse na porta da sua casa? Bem, essa foi só uma história que tomou forma enquanto estava sendo escrita, tirada da minha imaginação extremamente fértil. Beijos e até mais!

6 Comentários

  1. (...) a pele dele não era apenas ressecada, e sim verde. "Ah, claro. Ele deve fazer performances como estátua viva" KKKK Ah tá explicado hahaha!(:
    Você escreve muito bem Renata! Sério mesmo (: Seguindo aqui
    http://16primaverasblog.blogspot.com.br/

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    1. Hahaha, ai Ingrid, sua linda, que bom que se divertiu c:
      Muito obrigada, sério, fico muito feliz que tenha gostado! Beijão.

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  2. Hey!
    Adorei! Eu amo ET, sabe? Histórias sobre Et, coisas assim... Isso começou depois que li Eu sou o Número Quatro, antes eu meio que tinha medo... Aliás, eu meio que acredito em Et, ás vezes... Hahahaa, sério. Mas enfim, adorei seu conto, ficou muito bom mesmo!

    Se um E.T batesse em minha porta e fosse verde, pequeno e esquisito, eu correria e sairia de casa pela porta dos fundos. Mas se fosse "gatinho" como o John Smith, eu deixaria ele entrar e bateríamos um bom papo sobre o universo e suas belezas... hahaha

    Beijos!

    http://tordodemorango.blogspot.com.br/

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    1. Oi Midi!
      Sério? Eu só comecei a gostar quando li A 5ª Onda! É tudo de bom <3
      Pois é, extraterrestres dão um medinho mesmo, hahaha. Sim, ETs existem, mas não são verdes e cabeçudos. Eu acho, rs.
      Claro, existem ET's e ET's, né amiga?!
      Beijos!

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  3. Ficou linda, Rê! E divertida, além de tudo, haha. Amei a ideia do suco Tang como combustível.
    Beijos

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    1. Ai que tudo! Que bom que gostou e se divertiu :D
      Juro que não sei de onde isso saiu. Provavelmente dos recônditos longínquos da minha mente que nunca deveriam ser acessados, rs.
      Beijo!

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